quinta-feira, 28 de abril de 2011

O sujeito e o Outro Social


A cultura em Freud não foi pensada como conhecimentos ou saberes universitários e nem como obras de arte. Para a psicanálise, a cultura é laço e, tratando-se dos sintomas sociais, é necessário fazer uma leitura da época na qual a subjetividade se inscreve como resposta. Do mesmo modo, também é preciso repensar se as respostas que Freud encontrou ainda são vigentes ou se devemos inventar novas respostas para novos sintomas.
Se a subjetividade varia, o mal-estar em si mesmo é o irredutível que atravessa toda época e lugar. Freud não teve uma posição idealista. Tanto no “Mal-estar na cultura”, como no texto “Totem e tabu”, Freud situa, com a pulsão de morte, um irredutível que traça um horizonte ético que exclui toda a intenção idealista de progresso ao nível do social. Educar a pulsão é um impossível. Para Freud, Eros como força que une e faz os laços não era mais poderoso que Tânatos que os destrói.
Há um horizonte a-social que não é contingente à época, mas o irredutível da própria pulsão, que se satisfaz de um autismo que prescinde do Outro. A pulsão é a-social, mas o inconsciente não.
O inconsciente é um discurso, por isso mesmo é político e a partir desse discurso do Outro se lhe atribuem identificações que governam o sujeito. O inconsciente é esse Outro que é político1. Daí que, se a pulsão é a-social, o inconsciente não o é. O inconsciente é social enquanto dá conta da relação do sujeito ao discurso do mestre.
Freud situa o ato parricida no coração da genealogia da cultura, como fundante da lei pela qual o sujeito se introduz no social. Não se trata só de matar o pai, mas de fundar um pacto para a distribuição do gozo e garantir que ninguém ocupará o seu lugar. Assim, ato parricida e ato social são dois movimentos articulados. 

trecho do artigo " Psicanálise e sintoma social"

terça-feira, 26 de abril de 2011

Luto

Saudades imensa que sinto de mim. Pra onde eu fui? será q estou escondida em destroços de minha história? Talvez Eu esteja em meio a ruínas de pensamento que desapeguei......será que estou na saliva de opiniões alheias a desgaste e ao desespero? será que "Eu" está tentando me encontrar, ou se foi porque não mais me queria?
Não sei como Eu pude me abandonar sem dar qualquer satisfação. Sim! Eu soube que sempre fui uma metamorfose incoerente, assimétrica, mas Eu gostava de mim. Agora Eu me  sinto ninguém, me sinto o vazio que não pode ser preenchido....me sinto qualquer um menos Eu....para onde será que Eu fui? Será que "Eu" volta algum dia?...ainda que voltasse eu não seria o mesmo de antes. Que confuso... me procuro mesmo sabendo que me perdi de vez... mesmo que "Eu" tente ser eu,  jamais terei a mesma essência de antes....me sinto ninguém mesmo. Será que ninguém me ama  como Eu? Será que ninguém terá a mesma consideração por mim que Eu tinha....será que ninguém saberá apreciar coisas que Eu disse? Será q ninguém vai preencher o vazio que "Eu" deixou quando se foi? De fato sei que Eu não volta mais, e Ninguém? Quem sabe..... amadurecer é se perder para nunca mais se achar.... é isso que a vida faz, ela faz com que possam tentar ser sempre alguém interessante para os outros, e assim  obtemos satisfação, o gozo em ser, e quando menos se espera, você se abandona, para se tornar alguém diferente... È difícil transformar-se sem matar o que se foi.

sábado, 16 de abril de 2011

“CRISE DO MACHO“: REFLEXO DAS RELAÇÕES DE GÊNERO?



" A crise do macho ressignifica a crise do sujeito


A crise do sujeito moderno foi instaurada a partir de descentramentos lentos e
graduais da subjetividade que deslocaram o sujeito cartesiano de seu centro. Hall
(2004) identifica cinco grandes pilares teóricos que influenciaram na desconstrução
dos paradigmas culturais tradicionais: a teoria sociológica de K. Marx, a psicanálise
de S. Freud, a linguística moderna de F. Saussure, a filosofia de M. Foucault e o
movimento feminista. Todos eles ocorridos a partir dos anos 60 do século
passado[4].
Marx negou a primazia de uma essência universal, individual e singular do homem.
O ser humano é capaz de produzir as condições de sua existência, todavia, é
historicamente determinado por elas.
Freud, por sua vez, negou a existência racional e una de uma identidade fixa do
sujeito pensante. O homem não é o senhor de si mesmo, mas é moldado por
formações do inconsciente.
O terceiro descentramento, conforme Hall (2004), foi estabelecido pela linguística
moderna de Saussure, que postulou a língua como sistema social e não individual
de signos. O indivíduo não é dono do seu dizer, porém obedece às normas e
significados culturais de sua língua.
A teoria de Foucault provocou a quarta ruptura com as identidades fixas, ao afirmar
que o "poder disciplinar" das instituições, por meio de regras e da vigilância, além
de controlar, transforma os indivíduos em "corpos dóceis", isolados e
individualizados.
Com o feminismo ocorre o derradeiro descentramento de uma identidade
androcêntrica e patriarcal, por meio do questionamento da dicotomia
público/privado, além de fomentar a discussão em torno do que se convencionou
chamar de "política das identidades", iluminando outros grupos (negros,
homossexuais, etc.) tão excluídos quanto as mulheres. Tais grupos organizaram
movimentos sociais, que lutavam por direitos civis semelhantes aos dos cidadãos
representantes do status quo vigente.
Conforme Knoll (2009: 04), todas essas mudanças culminaram no deslocamento do
sujeito e na decorrente concepção de identidades plurais. Não há uma "identidade
una no sentido de unificada ou homogênea, pelo contrário, as identidades são
multifacetadas, heterogêneas, fragmentadas e estão em contínuo processo de
construção ou estabelecimento".
Os estudos acerca do status social feminino, as suas relações com o universo
masculino, com a vida privada e com a vida pública, levaram ao questionamento do
papel e função masculinos, já que não se pode olhar para o mundo feminino
ignorando o mundo masculino, e vice-versa.
Foi, assim, no contexto tecido sobre as críticas e os avanços dos estudos feministas
e de gênero e dos novos movimentos sociais que a masculinidade, também
compreendida como culturalmente específica, emergiu como uma temática a
pesquisar. Segundo Henningen (2004: 110), embora essas pesquisas sobre
masculinidades remontem aos anos 70, apenas na década seguinte apareceram
estudos sobre a construção social das masculinidades, diretamente beneficiados por
reflexões em torno do conceito de gênero.
Esses estudos introduziram novas concepções sobre a definição da identidade
masculina e questionaram a idéia vigente até os anos 80 - quando a masculinidade
era estudada ou sob o ponto de vista dos homossexuais, ou sob o ponto de vista da
relação entre mulheres e homens - na qual havia um modelo único de
masculinidade.
Conforme enfocamos anteriormente (PIRES & FERRAZ, 2008), as teorias críticas de
gênero sugeriram a pluralidade de feminilidades, o que fez Garcia (1998) acreditar
que há, da mesma forma, uma diversidade de tipos de masculinidades,
correspondente a diferentes inserções de homens na estrutura social, política,
econômica e cultural. Na cultura ocidental, não há um modelo universal de homem
que não possa ser transformado conforme o tempo e as circunstâncias.
A partir dessas constatações, emerge a "crise do macho" que Arent (1999: 119)
definiu como a insegurança masculina frente à perda de seu papel tradicional de
dominação, bem como frente à exigência de novas atribuições sociais, como o
cuidado aos filhos e a realização de tarefas domésticas, ocupações anteriormente
exclusivas das mulheres.
Refratados e refletidos na mídia, discursos cotidianos registram a construção de
novas identidades sociais de gênero, cujo fundamento é a interação. A relação
social, decorrente dessa interação, implica no reconhecimento de diferenças e
particularidades individuais, revelando um tenso processo de movimentação em
direção a - e não contra - esses outros.
A seguir, abordaremos como as marcas identitárias atribuídas a cada sujeito nas
representações da mídia são essenciais na elaboração daquilo que aprendemos e
reconhecemos como determinada identidade."

* Um trecho do texto da autora VERA LÚCIA PIRES (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A dupla virtualidade do si mesmo.



Em uma sociedade como a nossa, sociedade da imagem e da informação temos nosso mundo psicológico invadido por variados fluxos das mesmas, colocando-nos a pensar e a  agir. Somos aquilo que falamos e aquilo que silenciamos. Somos aquilo que nos foi possível escutar, ver, ouvir, entender. Uma época é representada pelo modo como permite falar de nós mesmos e ainda como falamos de nós  mesmos. Uma época, um momento na  história pode Ser representado pelo modo como podemos pensar a si mesmos. Pois cada época possuiu  seus modos permitidos e não permitidos de falar a respeito de um si mesmo. É este si mesmo que esta sendo re-inventado na atualidade, somos convocados, somos inauguradores das novas formas de olhar e  pensar e  a  agir  consigo mesmos. E este é o modo como também olharemos e compreenderemos o outro. Nós somos o outro que ensina novas formas de olhar a si mesmo. Do “conheci a ti mesmo” ao invente a si mesmo, esse  é o lugar do  si na  atualidade. Essa é uma condição do contemporâneo. Hora  parece que não, de que isso é bobagem de sociólogos e psicólogos, ela é sutil, se  dá no cotidiano, nos atravessa quando enfrentamos o mundo e  é impossível atravessar isentos. Hoje lidamos com possibilidades e  dimensões que misturam espaços cotidianos do  real e do virtual, nossa  realidade é uma mistura, é um simultâneo de dimensões subjetivas e maquínicas, intemporais.Vivemos uma revolução da linguagem, da informação e da comunicação, que talvez seja desnecessária, pode-se viver sem o Orkut, o MSN ou o face book, alguns diriam até sem a  internet. Embora esta cada vez  mais difícil pensar essa possibilidade. Já contamos mentalmente com essa espécie de arquivo virtual global, já contamos com essas  estradas de caracteres eletrônicos por onde ao  andar e  passear, nos transformamos. Criamos nelas, quintais de privacidade, espaços de intimidade semi-públicas, circulamos com desenvoltura matemática na  rede, estamos integrados mas vivemos um drama particular, apenas de cada  um, experiência própria e solitária da vida individual, camada do intimo, do silencio e do pensamento, da palavra que foi ao mundo e voltou a  sua morada. Solidão e companhia é qualquer outra coisa que estar sozinho ou acompanhado. Parte recém inaugurada do si na atualidade, espaço onde ele inaugura novos territórios de intimidade para escapar da colonização e da política do sentido.

Leo

terça-feira, 15 de junho de 2010


O Louco II


"No jardim de um hospital psiquiátrico conheci um jovem formoso de rosto pálido e encantador... 

Sentando-me a seu lado num banco, perguntei-lhe:

- Porque estás aquí?

Olhando-me, com estranheza, disse:

- Essa é uma pergunta pouco própria, mas, de qualquer modo, responderei.

Meu pai quis fazer de mim uma cópia dele; o mesmo ocorreu com o meu tio. Minha mãe queria que fosse igual ao seu pai. Minha irmã apontava o seu esposo, oficial da marinha, como o modelo de perfeição a seguir. Meu irmão, excelente atleta, pensava que eu devia ser como ele.

E também os meus professores, de filosofia, de música, de matemática, me incitavam a ser um reflexo deles num espelho.

Por isso vim para aqui. Parece-me mais saudável. Pelo menos poderei ser eu mesmo.

De repente, voltou-se para mim, e disse:

Diz-me tu, agora. Vieste parar a este lugar guiado pela educação e pelos bons conselhos?

Eu respondi:

- Não, sou só um visitante.

Então ele disse:

- Ah!!!. És um daqueles que vive no manicómio, mas, do outro lado do muro?



Khalil Gibran


O Louco

Perguntais-me como eu me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes dos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu tinha confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram-se de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez a minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!”

Assim eu tornei-me louco. E encontrei tanto a liberdade como a segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Khalil GIbran

terça-feira, 8 de junho de 2010

PROVÉBIO LUANISTA



Um belo dia Quatro adultos estavam a espera de um ônibus, de repente um extranho muito familiar, aparece com um sorriso desfalcado, e um cabelo integrado, com uma blusa xadrez com bolinha furadas, e um short liso cheio de bolinhas também, aparece desgraçado com a mão (com a fome, com a sede, com a solidão, e com o desespero) e nos pede um moeda. A criança sorri, pega na bolsa e entrega uma moeda de um real, lacrimeja e entrega ao louco estranho bastante familiar.
O louco entrega ao pai da criança um anzol, e à criança uma pedra... (um dos rapazes sorri, e uma das moças também....A outra moça gargalhou (como não? achei estranho).... o pai da criança joga o anzol e diz: - ENTENDI A MENSAGEM (?).... A CRIANÇA OLHOU A PEDRA E JOGOU.... cabisbaixa, sorriu sozinha, e escutou os deboxes e sarros de todos, pega a pedra e diz é um coração...   (?)
qual a moral?
?

Às vezes dar aulas  é como ser um andarilho urbano e entregar pedregulho aos familiares estranho....